Sambódromo do Mar Profundo

Na ilha do Faial, nos Açores, a biodiversidade do mar celebra-se em terra.  

A cidade da Horta, no Faial, assinala o Carnaval com um desfile dedicado à literacia do oceano e ao combate ao lixo marinho. O município – que se assume como o único do arquipélago com um pelouro dedicado ao mar, à inovação e ao empreendedorismo – desafiou as escolas para expressarem o tema nos figurinos do habitual Desfile da Pequenada.

A inspiração surgiu do projeto Sambódromo do Mar Profundo, promovido pelo OMA – Observatório do Mar dos Açores no âmbito do programa “No PLANet B”, co-financiado pela AMI e pelo Instituto Camões. Vamos conhecer melhor esta “dança” de espécies encantadas feitas a partir de lixo marinho?

Mostrar a biodiversidade através da arte sustentável

Um desfile teatral onde os materiais que habitualmente ameaçam as espécies, como o plástico descartável, dão vida a representações coloridas de exuberantes seres marinhos num “sambódromo” em que se celebra a biodiversidade a dançar. Apresentar as espécies do mar mais profundo dos Açores aos habitantes do arquipélago é mesmo um dos principais objetivos do Sambódromo do Mar Profundo. Ao mesmo tempo, este desfile de cor e formas pretende sensibilizar a população para a poluição provocada pelo lixo marinho, em especial pelo plástico.

Entre maio e agosto de 2019, a equipa de bailarinos, coreógrafos e professores de dança trabalhou lado a lado com biólogos e cientistas para que o espectáculo pensado para a Semana do Mar, a maior festa da ilha do Faial, fosse impactante visualmente mas também na mensagem a passar. Sobre este projecto, conversamos com Aurora Ribeiro, em representação da equipa do OMA.

“O projeto consistiu em 3 fases distintas, com objetivos diferentes”, começou por explicar Aurora Ribeiro. A primeira etapa foi pensada com workshops para toda a equipa artística que iria dar forma ao espetáculo performativo. Figurinista, coreógrafos e bailarinos participaram em atividades “sobre a biodiversidade, importância e ameaças dos ecossistemas marinhos vulneráveis” para perceberem “a riqueza, diversidade e fragilidade destes ambientes únicos”. Ao mesmo tempo, estes workshops serviram de base e de inspiração para o trabalho criativo de preparação dos modelos e do desfile, até porque “ainda existe muito desconhecimento sobre estes ecossistemas”, confessou.

Preparar o espectáculo foi a segunda fase, com a criação dos figurinos, coreografia e ensaios. “O espetáculo propriamente dito foi um acontecimento verdadeiramente mágico”, recorda. Ao mesmo tempo, a equipa do Sambódromo conseguiu reunir a comunidade para várias limpezas das praias e ribeiras da ilha – a “terceira fase” que, no fundo, dá continuidade ao projeto no pós-espetáculo.

Muitas espécies que habitam o mar dos Açores são desconhecidas da maior parte dos açorianos. Para esta “mostra performativa” foram escolhidos alguns dos animais mais cativantes, do ponto de vista visual. Aurora Ribeiro conta que “o público começou por ficar intrigado, ainda na fase de promoção. Sambódromo? Afinal o que é que vai acontecer?”, perguntavam.

Na noite do desfile, as personagens iam atravessando a cidade até ao local do espetáculo, já caracterizadas, e as pessoas iam parando e fotografando, espantadas, conta Aurora Ribeiro. Quando as luzes se apagaram e a música começou, “o público ficou em suspenso”. A iniciativa foi um sucesso, com milhares de partilhas de fotos e vídeos nas redes sociais. E a mensagem, muito simples, passou: “quando a música baixou de tom, ouviu-se uma criança a dizer: “vêm ali os plásticos!” diz, orgulhosa, Aurora Ribeiro.

Sensibilizar para o impacto do lixo marinho

A implementação do projeto, considerando a preparação do espetáculo da Semana do Mar, contou com o apoio financeiro do fundo No PLANet B. No entanto, contaram também com o apoio do Município da Horta e com a colaboração de outras entidades do arquipélago dos Açores. Sobre o futuro, Aurora Ribeiro confirma que “o projeto sempre foi pensado para envolver vários setores da comunidade local” e que, para além do financiamento mencionado, “estabeleceram-se logo parcerias na fase inicial”.O Sambódromo do Mar Profundo está disponível para itinerância” e foi concebido com esse intuito. “Existe o interesse e a abertura para levar esta mensagem ao maior número de pessoas”, confessa. Para o próximo ano, a equipa do OMA, coreógrafos, bailarinos e figurinista já estão a preparar um novo espetáculo sobre importância das áreas marinhas protegidas. Lia Goulart, diretora artística do Sambódromo do Mar Profundo, acrescenta que o projeto “acabou também por se transformar numa oferta cultural e artística diferenciadora na ilha do Faial” e um exemplo de como “a arte pode efetivamente ser veículo de mensagem ou uma proposta de reflexão para questões tão prementes como a poluição marinha.”

Dia 20 de fevereiro a partir das 10h30, serão mais de 1200 crianças a desfilar pelas ruas do centro da Horta com a performance do Sambódromo do Mar Profundo na frente. Os figurinos são de Patrícia Costa e as coreografias de Aline Despres e Beatriz Teves Oliveira.