Preservar a Lagoa de Óbidos, preservar a natureza

O projeto LinDoMar arregaça as mangas todos os meses, para limpar o areal. A próxima ação acontece a 26 de janeiro.

A holandesa Linda Jochems e a alemã Dörte Schneider escolheram a Foz do Arelho para viver porque se apaixonaram pela Lagoa de Óbidos. Entre a Foz do Arelho e o Vau (nos concelhos de Caldas da Rainha e Óbidos, respetivamente), há uma “entrada de mar” que alimenta a lagoa com cerca de 7 quilómetros quadrados e profundidade média de 2 metros. A depressão lagunar é um ecossistema natural que influencia animais, vegetação e zonas circundantes. “A lagoa é de uma beleza única – tanto a Linda como eu apaixonámo-nos por ela e escolhemos viver aqui”, conta Dörte. “Essa beleza merece muito mais atenção e cuidado.”

Foz do Arelho/Lagoa de Óbidos. DR Vitor Oliveira @ Flickr

Em 2017, Dörte foi desafiada para participar numa limpeza de praia organizada pela Brigada do Mar na zona de Alcochete. Como não conseguiu ir, decidiu organizar uma ação nas margens da Lagoa de Óbidos. Na altura, ligou a Simão Acciaioli, da Brigada do Mar, a pedir conselhos: “Ficámos meia hora ao telefone, ele explicou-me imensas coisas que devia ter em conta. No fim acabou a dizer ‘Cuidado, vais organizar uma limpeza e ficas viciada, não consegues parar mais!’ Assim foi”, recorda.

Nessa primeira ação, um dos apoios fundamentais que teve foi o da Associação Marmeu, de Peniche: “Vieram participar e ensinar-me, entre outras coisas, um modelo de separação que até hoje utilizamos.” Seguiram-se mais duas ações, em fevereiro e em abril de 2018, e foi numa delas que conheceu Linda. Ficaram amigas. Em julho nasceu o projeto LinDoMar – ou seja: Linda, Dörte e o mar. “Desde setembro de 2018 que fazemos limpezas de praia mensalmente, a não ser que a meteorologia não o permita”, conta Dörte.

LinDoMar: “Limpar, educar e cuidar”

“Limpar, educar e cuidar” é o lema do grupo informal criado por Linda e Dörte. Questionada sobre a parte mais difícil, a alemã explica que “as limpezas servem, antes de mais, para educar”. Exemplificando, “uma pessoa que acaba de ver 1600 cotonetes apanhados numa praia vai questionar as suas escolhas da próxima vez que for comprar cotonetes e opta por uma alternativa mais amiga do ambiente. Ou passa a deitá-los no caixote de lixo, pelo menos”. A interação durante as ações tem sempre uma componente educativa mas Dörte admite que “há imenso trabalho de sensibilização a fazer e o tempo escasseia.”

Só numa manhã, na limpeza de novembro de 2018, foram recolhidas 1600 palhinhas
DR FB LinDoMar

A escolha do lema, diz Dörte, teve que ver com os objetivos que as organizadoras definiram e que estão interligados. “Cuidar leva-nos de volta ao limpar, infelizmente. A quantidade de lixo é simplesmente impressionante.” A frustração é evidente no discurso de Dörte. “Começámos numa ponta da lagoa num mês, e quando terminarmos na outra ponta podemos regressar ao início, que seguramente já tem ‘assunto’”.

Neste momento, o grupo LinDoMar já não são só as fundadoras e os respetivos namorados – são cerca de 30 habitués, dependendo da disponibilidade, mas também há muita gente que aparece pela primeira vez. “Grande parte dos voluntários vive na Foz do Arelho, no Nadadouro e em Caldas da Rainha. Há uma família que vem participar em praticamente todas as ações e que se desloca desde Alenquer.” Também muitos estrangeiros que escolheram Portugal para viver participam com assiduidade, mas “felizmente também temos cada vez mais portugueses. Aquece-nos o coração ver esta nossa ‘família’ a crescer!” Dörte confessa, “Ficamos felizes quando trazem crianças, porque acreditamos que as boas práticas se ensinam desde cedo”.

Apesar de o foco principal serem as ações de limpeza, o grupo mantém algumas parcerias para o desenvolvimento de ações educativas fora do areal. Com a Associação Biogleba, por exemplo, já organizaram palestras em escolas de Caldas da Rainha. “Queremos trabalhar mais nesse sentido, para aprofundar a mensagem”, conta.

A Junta de Freguesia do Foz do Arelho apoia a LinDoMar desde o início nas questões mais logísticas (nomeadamente, através da cedência de sacos para lixo e da sua recolha) e na divulgação. Também o Movimento Sem Palhinhas, a Rede Biatakí, a lixomarinho.app, a Associação Oceanos Sem Plásticos, a Brigada do Mar e a Associação Biogleba, entre outros, são parceiros em algumas ações.

As inúmeras beatas são depois recolhidas pela Rede Biataki
DR FB LinDoMar

Lagoa de Óbidos, reserva ecológica… ou depósito de lixo?

Perguntamos a Dörte quais os objetos mais comuns e os mais absurdos que já encontraram. Cotonetes, acessórios de pesca (cordas, fios, esferovite) e beatas estão sempre a aparecer. Mas também já encontraram um monitor cheio de bivalves. Apesar de só terem começado a contabilizar a quantidade de lixo recolhido há pouco tempo, conta Dörte, “numa estimativa que demos para a COOL 2019, baseada na quantidade de sacos cheios retirados, falámos de 3000 quilos até novembro desse ano”.

Uma questão importante que Dörte refere é a dificuldade de reciclar muitos dos objetos que encontram. Apesar do apoio da ValorSul, empresa responsável pelo tratamento de resíduos naquela região, “quase nada do que encontramos pode, de momento, ser reciclado na rede ValorSul”, desabafa Dörte. “Numa das últimas ações, encontrámos uma rede de pesca de 45 metros de extensão”, feita com material de boa qualidade. O problema é que “depois não soubemos para onde a reencaminhar”. Neste caso, acabaram por reaproveitar a rede para construir uma vedação. “O projeto Turn The Tide, em Peniche, recebe algum do plástico que encontramos, o que nos dá motivo para termos esperança”, confessa. O objetivo do Turn The Tide é dar uma nova vida aos materiais que não podem ser reciclados e está perfeitamente alinhado com a visão de economia circular que a LinDoMar defende.

Ainda sobre a Lagoa de Óbidos, Dörte fala por ela e por Linda: “Gostaríamos muito que a zona fosse alvo de maior proteção, e vemos com apreensão o projeto das dragagens promovido pela APA. Na nossa visão devia ser criada uma reserva ecológica.” Numa perspetiva mais alargada, gostavam de dialogar mais com a comunidade piscatória. “Mesmo a nível turístico, a lagoa tem imenso potencial. Acreditamos num modelo de turismo sustentável, que protege a lagoa com os seus ecossistemas, ao mesmo tempo que a promove e tira proveito dela.” Para já, o Centro de Interpretação da Lagoa de Óbidos, inaugurado em junho de 2019, parece ser “um passo na direção certa”, conclui.

Dia 26 de janeiro, quem quiser pode juntar-se à LinDoMar na limpeza das margens da lagoa. Dörte explica “tintim por tintim”: “Encontramo-nos às 10h, pedimos às pessoas que leiam e assinem o termo de responsabilidade, damos um briefing, distribuímos luvas e sacos, indicamos quais as zonas a limpar e o que retirar do areal.” Cheios os primeiros sacos, faz-se a “contabilidade”: “Esvaziamo-los em cima de uma lona e separamos o que sabemos ser reciclável, separamos as beatas de cigarros (colecionámo-las num recipiente da Rede Biatakí para posterior reaproveitamento), contamos cotonetes, etc. Pelo meio tiramos muitas fotografias e vamos trocando impressões com quem está presente.”

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