“Biatakí”, por favor

Projeto de David Figueira já recolheu milhares de beatas de cigarro.

As pontas dos cigarros não são biodegradáveis e contêm milhares de substâncias tóxicas. À medida que os filtros se vão decompondo, transformam-se em microplásticos. Só em Portugal, são mais de sete mil as beatas que acabam por ir parar ao chão. Sete mil beatas por minuto, lê-se neste artigo do Público. Desde setembro de 2019 que atirar beatas para o chão dá direito a multa mas é importante sensibilizar fumadores e estabelecimentos abertos ao público para que disponibilizem cinzeiros.

Anos antes, em 2014, David Figueira já teimava em recolher e juntar beatas e consciencializar as pessoas para evitarem que os “restos mortais” dos seus cigarros vão parar ao chão, às praias ou ao mar. Inicialmente, o objetivo do projeto Biatakí era reduzir as beatas de cigarro que acabam no chão em eventos como festivais de música. Rapidamente evoluiu e a área de ação alargou-se ao espaço público em todo o território nacional.

“Primeiro”, conta David, “criámos o Biatakí de bolso” – um cinzeiro portátil feito de canas e rolhas de cortiça.  Depois surgiram os “Biatakís” de chão/parede, os kits e “equipamentos de recolha de beatas para as ações de limpeza e sensibilização ambiental”, explica. David Figueira defende e promove a cooperação na forma como interage com a sociedade “e com outros atores como movimentos ambientais, associações, empresas e instituições”. É “graças a esta filosofia”, que o projeto Biatakí conta já com uma rede de parceiros diversificada.

Beata é plástico, sabia?

(Projeto “Beata é Plástico” da Zero Waste Lab com o apoio da Rede Biataki e em parceria com a Comissão Europeia e com a Representação do Parlamento Europeu em Portugal)

O (cinzeiro) Biatakí

Canas e cortiça, materiais sustentáveis, “naturais, abundantes e nacionais”, como explica David Figueira. As rolhas que servem de tampa ao cinzeiro portátil são “reunidas principalmente por alguns membros da nossa rede de parceiros”, nomeadamente na área da restauração e associações de estudantes universitárias. Duas a três vezes por ano, David faz a recolha de rolhas junto dos parceiros. Para dar corpo ao Biatakí, utilizam “cana comum, que existe em quase todas as ribeiras”, explica. “É uma planta invasora e de crescimento rápido”, pelo que cortar as canas para fazer os cinzeiros portáteis “acaba por ser uma forma de controlo não oficial da área de canavial”.

Reutilizar, reutilizar

Como “melhor exemplo” de reutilização, o criador do Biatakí explica como são feitos os kits de recolha e armazenamento de beatas: “A partir de recipientes que os nossos parceiros Horeca [hotéis, restaurantes e cafés] deitavam fora”, como potes de café e os barris de cerveja artesanal feitos em plástico. Pelas contas de David, já foram recolhidos e reutilizados “1252 potes de café Delta Ruby, 350 barris de cerveja descartáveis, uma tonelada de rolhas de cortiça e dezenas de metros de corda nylon de pesca”. Reforça novamente que “todas as parcerias são importantes” para atingir o objetivo que “é comum a todos”: acabar com o hábito de atirar lixo para o chão.

A rede Biatakí, considerando todos os parceiros, já recolheu milhares de beatas de cigarro nas ações que promove. E o que lhes acontece? “De momento, estão armazenadas nas nossas instalações”, conta David, assumindo o objetivo de “tratá-las e transformá-las num produto útil de forma eficiente e viável”. Sem adiantar muito, partilha que já foi iniciado o processo de pesquisa e que irão avançar em breve com um projeto-piloto. Se os resultados forem positivos, assegura, avançarão “para o tratamento deste resíduo em larga escala”.

A introdução de beatas de cigarro no fabrico de tijolo burro é atualmente uma das possibilidades de “reciclar” as beatas de cigarro, assim como “a produção de folhas de ‘papel’, obtendo a pasta resultante do tratamento das beatas”, ou ainda a criação de “objetos variados por moldagem e prensagem” – artigos de plástico dos quais 30% seriam resultantes desta pasta.