Da baquelite ao “boom” do plástico

Entrevista a Maria Elvira Callapez, investigadora principal na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa com um vasto trabalho sobre a História dos Plásticos.

Foi no início dos anos 90, por sugestão de uma professora da faculdade, que Maria Elvira Callapez, então estudante de Química, se aventurou a explorar o mundo dos plásticos. Conhecia-se pouco sobre polímeros, sobre plásticos, e sabia-se muito pouco sobre esta indústria em Portugal. Os trabalhos de investigação de Maria Elvira Callapez têm-se focado precisamente na indústria dos plásticos: “Na altura, não se sabia nada de plásticos, sobre a indústria de plásticos. Os industriais trabalhavam fechados, a Academia não tinha grande articulação, não tinha acesso… era um bloqueio até à própria investigação. Especialmente se nós precisássemos de consultar arquivos das empresas, na altura não havia. Tinham medo da espionagem industrial. Entretanto a mentalidade mudou completamente e acho que fizeram um progresso enorme, evoluíram imenso a esse nível.”

Maria Elvira Callapez recebeu-nos no seu gabinete na FCUL

Uma breve história do plástico

Maria Elvira Callapez começa com uma ressalva: “O que é um plástico em si? As pessoas às vezes referem-se a plásticos sem saber muito bem o que são plásticos… o plástico é um material sintético, é um polímero, é uma macromolécula feita em laboratório pelo homem. E isso aconteceu em 1907, quando foi sintetizado o primeiro plástico em laboratório por Leo Hendrik Baekeland. Foi o primeiro plástico sintético feito inteiramente pelo homem. Até aí já tinham sido conseguidos outros ‘familiares’ mas não eram feitos pelo homem, tinham sempre uma substância natural, quimicamente modificada.”

Curiosamente, a necessidade de encontrar um material sintético surgiu anos antes e partiu de um nobre objetivo: substituir materiais tradicionais como o vidro, o osso, os metais e outros materiais que eram caros devido, entre outras razões, à escassez. Há até uma história caricata: “Houve um concurso para arranjar uma substância que substituísse as bolas de bilhar feitas de marfim. Dada a escassez de elefantes, alguém lançou o prémio para quem arranjasse solução. Na altura, alguns químicos e alguns estudiosos lançaram-se ao desafio e puseram mãos à obra. Começaram a misturar substâncias e alguns conseguiram arranjar produtos que se aproximavam de materiais naturais.”

DR. BBC Plastics Watch (imagem retirada de um vídeo)

Já nessa altura, 1862, final do século XIX, havia uma preocupação ambiental e com a salvaguarda das espécies. Tentativas e erros, tentativas e erros. Alguns produtos tiveram sucesso mas também tinham limitações: as bolas de bilhar feitas em celulóide, alternativas às de marfim, rebentavam quando expostas ao sol. “Tinha que se usar outro tipo de solventes e foi-se melhorando até chegar a produtos melhores. A celulóide usava-se nas dentaduras, em peças de decoração e nas películas fotográficas, por exemplo, mas era altamente inflamável.”

Recorda-se do filme “Cinema Paraíso” (Itália, 1988)? Na altura, as películas de cinema e de fotografia eram feitas em celulóide, facilmente inflamáveis, como é perceptível no grande incêndio que acontece no filme italiano.

Baekeland e a baquelite

Leo Hendrik Baekeland, químico belga, conhecido como “o pai da indústria do plástico”, fez fortuna nos EUA. Foi “um visionário com jeito para o negócio. Começou de facto a fazer experiências sistemáticas, a experimentar, a controlar pressões e temperaturas e chegou ao produto dele”, a baquelite, um produto duro e insolúvel mas também moldável. Para Maria Elvira Callapez e muitos outros historiadores, “fez a reação do século”. Só aí, em 1907, se pode afirmar que surgiu o primeiro plástico, considerando que só se chama plástico aos materiais sintéticos. Em 1910, surge a produção em grande escala. “A indústria elétrica e tudo o que esteve ligado à radiodifusão, por exemplo, foram altamente consumidores da baquelite. Muitos produtos no período entre guerras, das comunicações aos equipamentos domésticos, também eram feitos em baquelite.”

E especialmente depois da Segunda Guerra Mundial, os materiais sintéticos, com propriedades muito superiores às dos materiais tradicionais, foram ‘vulgarizados’, consumidos em massa. Os plásticos eram moldáveis, os cientistas (alemães, por exemplo, já que o país estava impedido de importar), tiveram que desenvolver técnicas para obterem produtos que substituíssem a borracha e foram aparecendo outros tipos de plástico, com aplicações múltiplas e cada vez mais essenciais no desenvolvimento da economia e da sociedade.

Maria Elvira Callapez é licenciada em Química Aplicada no ramo de Química Orgânica e Mestre e Doutorada em História e Filosofia da Ciência e da Tecnologia. Na área da investigação, os seus interesses focam-se na relação entre a Química, o dia-a-dia e o desenvolvimento social. É investigadora principal no projeto “O triunfo da baquelite” do Departamento de História e Filosofia das Ciências da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Pelo contexto desta entrevista, destacam-se apenas estes marcos do seu vasto currículo académico. Das publicações da sua autoria, o trabalho de investigação que desenvolveu para “Plásticos em Portugal – A Origem da Indústria Transformadora”, editado em 2000, foi muitas vezes referido ao longo da conversa. Publicações como “Do Pé Descalço à Alpercata: A História da Massificação dos Plásticos” (2006) e “Paper or Plastic?” publicado na Revista Ciência Hoje são outros exemplos do vasto trabalho da historiadora.