“Plástico à Vista”: menos plástico, mais consciência

Conheça a PAVan e o que move este projeto.

O projeto Plástico à Vista (PAV) é um laboratório itinerante de (boas) ideias sobre o plástico, pensado para sensibilizar e envolver a comunidade. Dolores, Adriana e Mafalda dedicam-se há cerca de um ano ao projeto e desde janeiro que levam o PAV às escolas, centros sociais e praias de Almada. A mensagem que passam é de corresponsabilização e sensibilização acerca do plástico que se transforma em lixo marinho, com base nos três “R” da sustentabilidade: reduzir, reutilizar e reciclar. Fazem-no numa espécie de “laboratório ambulante” (uma carrinha adaptada e baptizada de PAVan) que lembra as quase extintas bibliotecas itinerantes. Tal como as bibliotecas que iam de Norte a Sul até às povoações mais remotas, a PAVan também quer chegar a todo o país.

A PAVan no Centro Social da Trafaria numa atividade com alunos do Jardim de Infância

“O plástico é fixe, mas temos de aprender a usá-lo com consciência”

“Vamos navegar juntos no nosso navio?” Assim começa a “viagem” de uma das turmas do Jardim de Infância do Centro Social da Trafaria, em Almada. Dolores é uma das “comandantes” do PAV e é ela que começa este roteiro pelo plástico. Apesar de o projeto não ser exclusivamente pensado para crianças, acreditam que “o despertar para o consumo consciente e para as questões do ambiente deve ser estimulado desde a primeira infância”, conta.

A tartaruga Lisa, a mascote de peluche do PAV, ajuda a captar o interesse dos miúdos, quase todos com 4 e 5 anos. Com dotes de ventríloquo, Dolores avança com a tartaruga Lisa a interagir com a plateia: “Sabem que comidinha é que eu gosto de comer? Alforrecas. E sabem o que é que é muuuuuito parecido com uma alforreca?” A resposta “sai-lhe” da barriga: um saco de plástico. E seguem-se outro e mais outro saco.

“Lisa”, a tartaruga/mascote do PAV

Entre espanto e risos, depois de quebrar o gelo com as crianças, Dolores chega ao problema: se a tartaruga tem fome e come sacos de plástico, vai ficar com dores de barriga… e ficará furiosa com os humanos. “Masvocês podem ajudar a resolver o problema.” Chamando alguns voluntários, convida-os a tirarem mais coisas da barriga da tartaruga. Palhinhas, brinquedos partidos, rede de pesca. “Sabiam que uma palhinha no oceano vai durar mais do que a tartaruga Lisa?” Silêncio na plateia. “Sabem como é que o lixo foi parar à praia?”, continua enquanto tenta puxar pelos atentos miúdos. “Para onde é que deve ir o lixo de plástico?” Para esta pergunta, a resposta ouviu-se em coro, “No ecoponto amarelo!”.

No âmbito deste projeto itinerante, Dolores, Adriana e Mafalda desenvolveram um conjunto de atividades que vão desde os jogos tradicionais adaptados à temática até à exibição de filmes e dinâmicas de grupo para alunos e professores. De uma forma divertida e participativa, conseguem que no fim de cada sessão os miúdos se sintam “guardiões do planeta”, corresponsabilizando-os para a preservação dos ecossistemas e relembrando-os para passarem a mensagem aos pais. “O plástico é fixe, mas temos de aprender a usá-lo com consciência”.

Depois de uma primeira parte da atividade, o vídeo do “jacaré pirata” faz as delícias da turma. Antes de irem espreitar o outro lado da carrinha e as “máquinas mágicas que transformam o plástico”, Adriana, a “cientista de serviço”, faz algumas perguntas sobre o vídeo didático. “O que podemos fazer para salvar o planeta?” Da separação do lixo a apagar as luzes, Adriana insiste na redução: “Quando um brinquedo se estraga, podemos reutilizá-lo de outra forma. E podemos transformar objetos de plástico em novos objetos.” Com o mote lançado, convida as crianças a subirem à PAVan. “Começamos sempre por mostrar um filme e abordamos a questão dos três ‘R’ porque é uma coisa com que eles estão bastante familiarizados, é uma coisa de que os professores falam. É o mote para passarmos para a parte da reciclagem”, explica Adriana. Sobre o que fica da atividade, Dulce Vieira, coordenadora pedagógica do jardim de infância, explica, “Quando a turma sai daqui, falamos sobre o que vimos e ouvimos, fazemos desenhos e depois expomos nas salas. Os pais também têm conhecimento, partilhamos o registo desta atividades com os encarregados de educação.”

As “máquinas mágicas que transformam o plástico”, inspiradas nas “máquinas de reciclar caseiras” do Precious Plastic
Um projeto que envolve toda a comunidade
A ação do PAV no Centro Social da Trafaria teve sessões para miúdos e para graúdos, com as auxiliares e educadores do jardim de infância e os utentes do centro do dia a terem direito a apresentações especiais. Alguns dos “graúdos” já faziam parte do PAV, como a dona Libânia, de 94 anos, que ajudou a costurar os saquinhos que equipa do PAV oferece às escolas com materiais lúdico-pedagógicos.
À direita: dona Libânia, 94 anos, voluntária do PAV

A inspiração no Precious Plastic

As “máquinas mágicas que transformam o plástico” estão do outro lado da PAVan. Inspirado no projeto revolucionário do jovem holandês Dave Hakkens, o Plástico à Vista construiu uma “máquina de reciclar caseira” onde os resíduos plásticos são triturados em pequenas partículas. Depois de irem ao forno numa forma rectangular, essas partículas de plástico transformam-se numa espécie de “azulejo” de plástico reciclado.

O plástico é triturado (neste caso, tampinhas de garrafas de água), vai ao forno num molde e “transforma-se” numa espécie de azulejo de plástico que pode ter múltiplas funções

Uma mensagem de corresponsabilização para o problema

Para Adriana, é importante o diálogo entre produtores, retalhistas e consumidores, e “percebermos que realmente é um problema e que temos de fazer alguma coisa para o resolver”. Reforça que a posição do PAV não é extremista, apela sim a “reduzirmos naquilo que conseguimos”. O projeto arrancou em novembro de 2018 na margem sul de Lisboa, nas freguesias costeiras de Trafaria e Costa da Caparica, em Almada. O PAV associou-se à Divisão de Educação e Sensibilização Ambiental do Município de Almada, aos agrupamentos de escolas, associações de pescadores e outras instituições locais, “mas não seria possível estruturar o projeto desta forma e construir a PAVan sem o apoio financeiro da AMI através do programa ‘No Planet B’, cofinanciado pela União Europeia no âmbito do programa Educação para o Desenvolvimento e Sensibilização (DEAR) e pelo Instituto Camões”.

“No Planet B!”

Dolores já tinha experiência em projetos sociais com a EDA – Ensaios e Diálogos Associação (o PAV enquadra-se no plano de atividades da associação; o nome completo do projeto é, na verdade, Plástico à Vista by EDA). Recorda que “a AMI [Assistência Médica Internacional] ia abrir uma linha de financiamento para o Ambiente, o concurso ‘No Planet B’. Olhamos para o mapa da região e pensamos: qual é o problema transversal ao rio e ao oceano?” – note-se que ambos banham Almada. O lixo marinho evidenciou-se, especialmente quando muitas famílias carenciadas das freguesias de Trafaria e Costa da Caparica dependem das atividades piscatórias. Conseguiram os apoios de que precisavam para arrancar com o projeto-piloto.

O PAV não pode ter um fim à vista

Os 13 meses de financiamento estão quase a terminar e, além de Dolores e Adriana, também Mafalda se dedica a tempo inteiro à dinamização das atividades do PAV. Elas são a alma do projeto e a equipa que o põe, efetivamente, em marcha. O investimento já foi feito, têm tudo para o levar mais além, mas é fundamental conseguirem um novo apoio que garanta a subsistência do PAV. Depois de um ano de experiência e centenas de pessoas alcançadas, o PAV já provou ser um projeto dinâmico que pode ser redesenhado para se replicar noutras zonas do país e tem (quase) tudo para que isso aconteça.