No “esqueleto do mar”, o lixo transforma-se em arte

Xandi Kreuzeder, João Parrinha e Luis de Dios: amigos, surfistas e artistas por uma causa. Fomos conhecer os Skeleton Sea.

A propósito da conferência Beyond Single-Use Plastics, organizada pelo Colégio de Ambiente da Ordem dos Engenheiros da Região Norte (OERN) no passado dia 11 de junho, o coletivo artístico Skeleton Sea foi desafiado para criar uma escultura no coração do Porto, junto à estação de metro da Trindade. Reutilizando garrafas de plástico recolhidas numa acção conjunta da OERN com a FAP, FEUP, Associação FOCA, Lipor e outros parceiros, Xandi Kreuzeder e João Parrinha fizeram um caranguejo-aranha gigante, bem colorido, que dificilmente passará despercebido. A mensagem por detrás da obra é a mesma que move o trabalho que desenvolvem desde 2005: alertar para o problema da poluição nos oceanos.

Fizemos algumas perguntas a Xandi Kreuzeder, o surfista alemão que vive há alguns anos na Ericeira – onde fica a base dos Skeleton Sea:

Quando abordei o Xandi no Porto, perguntei se era o “cérebro” do “corpo do projeto”. Mas, na verdade, o que eu quero saber é se a “alma” já existia antes do próprio “esqueleto” [Skeleton Sea é “Esqueleto do Mar” em português]. Pelo que percebi, pelo menos o Xandi e o João Parrinha são amigos de longa data e há anos que fazem ‘surf trips’ juntos.

Eu costumava viajar muito com os meus velhos amigos surfistas, João Parrinha e Luis de Dios. Uma vez, antes de 2005 (quando começamos com o projeto), fomos para um surf spot bastante remoto, na ilha de São Jorge, nos Açores. Caminhamos durante horas ao longo de um caminho onde só circulavam os animais. De um lado, o Atlântico de um azul profundo. Do outro lado, as belas e verdes colinas, sem qualquer tipo de construção. Só vimos uma coisa bizarra… uma faixa colorida de lixo plástico ao longo das rochas, até onde a nossa visão conseguia chegar. O oceano estava constantemente a trazer lixo da costa e o lixo estava a acumular-se. Foi então que nasceu a ideia de começarmos um projeto artístico que transformasse o lixo em arte e consciencializasse as pessoas para mantermos os oceanos limpos. Na viagem seguinte que fizemos juntos, a Fuerteventura (2005), começámos a construir as nossas primeiras esculturas, que, de certa forma, nos faziam lembrar a Skeleton Coast, na Namíbia, que tem imensos destroços de naufrágios… e foi assim que surgiu o nome, Skeleton Sea.

Este projeto é “uma missão sem fim”?

Parece que sim… mas, pelo menos em alguns lugares como a Ericeira, as coisas estão a mudar para melhor. Há limpezas de praia quase semanalmente, organizadas por pequenos grupos como o Ocean Hope e nós, Skeleton Sea, também organizamos algumas acções. Neste momento, esta zona de costa tem-se mantido limpa graças a estes esforços locais.  

No geral, as pessoas parecem não ter uma perceção muito realista do que está a acontecer, possivelmente porque não estão dispostas a ir até às praias recolher o lixo e refletir sobre a proveniência desse lixo… É preferível promover ações com crianças? Os resultados são mais eficazes?

As crianças são o nosso futuro e é verdade que são muito mais abertas e têm uma percepção diferente das coisas. As pessoas estão muito ocupadas, com um ritmo de vida frenético. Tudo precisa de ser confortável e conveniente. As pessoas sabem dos problemas, mas, ainda assim, apenas algumas assumem a responsabilidade e dedicam algum tempo e esforço para ajudar, reciclar, reutilizar… parece muito demorado ou complicado. Os supermercados também sabem disso e, claro, possibilitam que as coisas sejam o mais convenientes possível sem assumirem grandes responsabilidades … Esse é o caminho para o desastre, a ganância é o principal problema, não há compreensão nem educação.

Os Skeleton Sea desenvolveram um projeto educativo nas escolas da Ericeira. Foi uma coisa pontual, naquele ano lectivo, ou continuam a promover atividades com escolas?

O nosso programa educativo chama-se Skeleton Sea Seedlings e o principal objetivo do projeto é sensibilizar os miúdos para a poluição dos oceanos. Levamos as crianças para a praia e a nossa bióloga marinha, Ruth Candeia, explica tudo sobre os oceanos e as consequências da poluição. Explicamos também que todos podem ajudar, que são parte da solução do problema. Durante a limpeza da praia, explicamos o tipo de lixo que vão encontrando e de onde vem, depois transformamos o lixo em pequenas peças de arte, nas oficinas. As crianças percebem que podem ser criadas coisas bonitas a partir do lixo, reutilizando e reciclando. As crianças mudam os hábitos diários, estão mais conscientes dos problemas que a poluição gera, da separação do lixo… Estamos felizes por trabalhar com elas.

Vídeo sobre o projeto educativo Skeleton Sea Seedlings

Sobre o significado do “Spider Crab” da Trindade, no Porto: acha que as pessoas realmente param para pensar sobre os materiais que vocês reutilizaram e sobre a mensagem que estão a tentar passar, de preservação dos oceanos e combate à poluição?

Algumas pessoas sim, de certeza que vão pensar um bocadinho sobre isso e alguns acabam por ir procurar mais sobre o nosso projeto. Sobre esta intervenção em específico, tivemos alguma cobertura mediática e a mensagem foi passando com um alcance significativo. 

Para quem quiser saber mais sobre o projeto, há um documentário disponível para alugar online, The Tides of Tomorrow. Partilhamos o trailer: